sábado, 15 de janeiro de 2011

MIL CORAÇÕES E UM GIBI

Minha coleção de "Karekano" está quase completa.
Ufa! Esperei mais de 2 anos para poder dizer isso!
Apesar de desenhar shonen, e "exagerar" um pouquinho nas lutas e sangue; eu gosto muito de shoujo mangá. Esse gênero me enriquece muito, como roteirista principalmente, mas no desenho também.
Desenhar uma casa explodindo, é muito fácil para quem sabe desenhar. Quadrado, círculo, triângulo... Tudo que é material é simples de desenhar.
Mas como é que se desenha rancor, timidez, inveja, remorso? Como desenhar uma coisa que não se pode ver? Essa é a grande vantagem do shoujo. Admiro estes mangakás que conseguem capturar e colocar no papel sentimentos tão difíceis como amor, ternura, ódio e culpa.
Mesmo que eu seja desenhista de shonen, minhas lutas não são mera violência gratuita. Cada golpe traz a sombra de um sentimento, um ideal, um motivo maior. Todas as histórias são carregadas de emoções... E eu acabo lendo muitos shoujos para aperfeiçoar minha capacidade de traduzir essas coisas.
"Karekano" é, de longe, meu mangá preferido. Li uma reportagem sobre a série, e fiquei interessada. Comprei o primeiro volume apenas para conhecer... E fiquei presa!
O que mais gosto é do jeito lúdico que a mangaká tem, da maneira doce com que ela expressa os sentimentos das personagens. Ela se apoia em tudo que têm para fazer o leitor entender o pensamento do personagem: associa símbolos aos sentimentos (principalmente flores), usa bastante o plano da memória, utiliza muitos chibis, expressões caricatas... e descreve detalhes, inclusive cheiro, textura e temperatura. Por mais que o roteiro seja brilhante, o trabalho não seria tão perfeito se o desenho não estivesse à altura.
Este é o lema que rege meu trabalho: o desenho precisa ser tão bom quanto o texto. Se eu pretendo fazer histórias incríveis e emocionantes... Preciso desenhar páginas incríveis e emocionantes.
Uma explosão é emocionante por si só. Um tapa na cara não é.
O bom desenhista é aquele que consegue fazer um gesto simples numa imagem surpreendente.
Neste ponto, Masami Tsuda é meu principal espelho. Ela tem algumas deficiências bem parecidas às minhas, no traço... Mas a maneira subjetiva de escrever é bem parecida. Lendo Karekano, aprendi que excesso de sentimento (mesmo no shonen) não é piegas. Ao contrário, é humano.
Num dos volumes de Karekano, a Tsuda fala que está sofrendo para terminar de ler "O Mundo de Sophia". Eu tenho esse livro... E li com a maior facilidade do mundo.
Fiquei pensando nessa magia especial dos livros, em "tocar" milhares de pessoas pelo mundo inteiro. É quase como uma grande teia de corações. E senti-me uma pessoa extremamente abençoada, por ser uma profissional dessa teia.
Sinceramente, não quero ficar milhonária vendendo mangás. Não é o desejo de dinheiro que move o meu trabalho. Quero que meus mangás consigam unir os corações de muitas pessoas, formando uma grande teia. Quero que as pessoas riam, chorem, sintam adrenalina... E sejam cada vez mais humanas, viajando com as minhas histórias.